• A prova de Língua Portuguesa é composta por três questões, valendo 100 pontos no total, assim distribuídos: Questão A – 40 pontos (sendo 15 pontos para o subitem a, 15 pontos para o subitem b e 10 pontos para o subitem c); Questão B – 20 pontos (sendo 10 pontos para o subitem a e 10 pontos para o subitem b); e Questão C – 40 pontos (sendo 15 pontos para
o subitem a, 15 pontos para o subitem b e 10 pontos para o subitem c).
Bom trabalho!
Abaixo foi transcrita uma pequena passagem do capítulo “A borboleta preta”, do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. Leia-a, observando os recursos estilísticos, sobretudo aqueles manifestados na forma de utilização das classes gramaticais para a produção especial de sentidos.
“O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornei lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.”
ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro, Aguilar, 1971. p. 552.
A.a) Observe e analise as expressões do primeiro trecho, destacadas abaixo. Tendo em vista que inscrevem um olhar do narrador, identifique e nomeie a figura criada por elas. A seguir, nomeie também a figura criada pela seqüência de ações resultantes desse olhar e discorra sobre seu efeito de sentido. (1)
“O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito.”
A.b) No segundo parágrafo, constrói-se um sentido de contradição do narrador em relação às suas ações manifestadas no primeiro. Escolha três expressões verbais que justifiquem essa contradição e as analise no contexto da passagem. (2)
A.c) Tendo como base a ambígua relação entre a borboleta preta e o narrador, desenvolva uma análise mais aprofundada, levando em consideração a leitura do livro, sobre o efeito de sentido produzido pela figura da sinédoque “farpinhas da cabeça” e “na palma da mão”. (3)
“Fabiano esfregou as mãos satisfeito e empurrou os tições com a ponta da alpercata. As brasas estalaram, a cinza caiu, um círculo de luz espalhou-se em redor da trempe de pedras, clareando vagamente os pés do vaqueiro, os joelhos da mulher e os meninos deitados. De quando em quando estes se mexiam, porque o lume era fraco e apenas aquecia pedaços deles. Outros pedaços esfriavam recebendo o ar que entrava pelas rachaduras das paredes e pelas gretas da janela. Por isso não podiam dormir. Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não eram propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências.”
RAMOS, G. Vidas Secas. São Paulo: Livraria Martins Editora, s/d. p.66.
“Fabiano esfregou as mãos satisfeito e empurrou os tições com a ponta da alpercata.
As brasas estalaram, a cinza caiu, um círculo de luz espalhou-se em redor da trempe de pedras, clareando vagamente os pés do vaqueiro, os joelhos da mulher e os meninos deitados.”
B.a) As ações de Fabiano nesse primeiro trecho desencadearam outras ações com efeitos plásticos e semânticos no contexto. Partindo dessa afirmação, analise, nas orações destacadas em itálico, os sentidos criados pela seqüência dos verbos, tanto sob o ponto de vista físico, quanto sob o ponto de vista simbólico, denunciando o estado das personagens. (4)
B.b) Em clareando vagamente os pés do vaqueiro, os joelhos da mulher e os meninos deitados, Graciliano Ramos se vale de técnicas que se assemelham às do cinema, como se fosse o olhar da câmera. Explique esse mecanismo e contextualize seu efeito de sentido com base na obra lida. (5)
“De quando em quando estes se mexiam, porque o lume era fraco e apenas aquecia pedaços deles. Outros pedaços esfriavam recebendo o ar que entrava pelas rachaduras das paredes e pelas gretas da janela. Por isso não podiam dormir. Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não eram propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências.”
C.a) O caráter realista da descrição se vale de vocábulos de natureza concreta que imprimem formas distintas de sensações à expressão verbal. Escolha três palavras de categorias gramaticais diferentes que sejam decisivas na construção da cena visual e justifique as suas escolhas. (6)
C.b) Na passagem, o modo “descritivo” de narrar e o uso de determinados núcleos de sujeito em relação aos predicados verbais sugerem uma forma de desumanização, de reificação dos meninos. Explique esse procedimento valendo-se de elementos do texto. (7)
C.c) Assinalando alguns termos dos três últimos períodos da passagem, temos: “Por isso não podiam dormir. Quando iam pegando no sono, arrepiavam-se, tinham precisão de virar-se, chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não eram propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências.”
No trecho, o que se percebe é a ocorrência do efeito de negatividade incidindo sobre duas ações por motivos diferentes. Analise a natureza dos referidos motivos dentro do contexto do romance. (8)