Prezado(a) candidato(a):
Assine e coloque seu número de inscrição no quadro abaixo. Preencha, com traços firmes, o espaço reservado a cada opção na folha de resposta.
Leia o poema abaixo, de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), e responda, em seguida, às questões de 1 a 3.
A minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu pela escada excessivamente abaixo. Caiu das mãos da criada descuidada. Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá! Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zangam com ela. São tolerantes com ela. O que eu era um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes, Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida? Um caco. E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.
1929
Sobre o poema em exame, é INCORRETO afirmar que:
a) é uma auto-avaliação apresentada aos deuses os quais não reconhecessem o valor de um poeta. b) Asneira? Impossível? Sei lá! são expressões que encerram uma apreciação do eu em relação à cena descrita e à imagem que passa a ter de si mesmo.
c) ao eu que se anuncia, ao longo do poema, são atribuídas características de uma figura fragmentada, destituída de uma essência. Tais imagens são sugeridas por vaso vazio, espalhamento de cacos.
d) é texto expositivo, organizado por passagens descritivas, seguidas de comentários que revelam a visão que o eu (poeta) parece ter de si mesmo.
Em todas as alternativas, indicou-se adequadamente, entre parênteses, o elemento modificado pela palavra em destaque, EXCETO:
a) Caiu pela escada excessivamente abaixo. (escada) b) Caiu das mãos de uma criada descuidada. (criada) c) Olham os cacos absurdamente conscientes, (conscientes) d) Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. (escadaria)
No poema, a seqüência criada involuntária remete a um ser:
a) que exerce essa profissão sem vontade. b) que realiza ações de forma não deliberada. c) que é voluntariosa e não obedece aos patrões. d) que executa as ações volitivamente.
Até tu, Brutus?!
Sim, foi este o modo como eu quis anunciar que — que Macabéa morreu. Vencera o Príncipe das Trevas. Enfim a coroação.
Qual foi a verdade de minha Maca? Basta descobrir a verdade que ela logo já não é mais: passou
o momento. Pergunto: o que é? Resposta: não é.
Mas que não se lamentem os mortos: eles sabem o que fazem. Eu estive na terra dos mortos e depois do terror tão negro ressurgi em perdão. Sou inocente! Não me consumam! Não sou vendável! Ai de mim, todo na perdição e é como se a grande culpa fosse minha. Quero que me lavem as mãos e os pés e depois — depois que os untem com óleos santos de tanto perfume. Ah que vontade de alegria. Estou agora me esforçando para rir em grande gargalhada. Mas não sei por que não rio. A morte é um encontro consigo. Deitada, morta, era tão grande como um cavalo morto. O melhor negócio é ainda o seguinte: não morrer, pois morrer é insuficiente, não me completa, eu que tanto preciso.
Macabéa me matou.
Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça. Desculpai-me esta morte. É que não pude evitá-la, a gente aceita tudo porque já beijou a parede. Mas eis que de repente sinto o meu último esgar de revolta e uivo: o morticínio dos pombos!!! Viver é luxo.
Pronto, passou.
Morta, os sinos badalavam mas sem que seus bronzes lhes dessem som. Agora entendo esta história. Ela é a iminência que há nos sinos que quase-quase badalam.
A grandeza de cada um.
Silêncio.
Se um dia Deus vier à terra haverá silêncio grande.
O silêncio é tal que nem o pensamento pensa.
O final foi bastante grandiloqüente para a vossa necessidade? Morrendo ela virou ar. Ar enérgico? Não sei. Morreu em um instante. O instante é aquele átimo de tempo em que o pneu do carro correndo em alta velocidade toca no chão e depois não toca mais e depois toca de novo. Etc. etc. etc. No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada.
Eu vos pergunto:
— Qual é o peso da luz?
E agora — agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas — mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morango.
Sim.
Todos os trechos a seguir são exemplos de momentos em que o leitor é explicitamente convocado ou tomado pelo narrador, EXCETO:
a) Qual foi a verdade de minha Maca? b) Não me consumam! c) Ar enérgico? d) Mas – mas eu também?
Leia os trechos a seguir:
I. Até tu, Brutus?
II. Quero que me lavem as mãos e os pés e depois – depois que os untem com óleos santos de tanto perfume.
III. Desculpai-me esta morte.
Há exemplo de referência intertextual em:
a) apenas I. b) apenas II. c) IeII. d) IIeIII.
À produção de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, costuma-se atribuir a seguinte divisão em fases:
1 — 1ª Fase (Campos pré-Caieiro): influência decadentista do Simbolismo. 2 — 2ª Fase (Campos eufórico): influência do Futurismo. 3 — 3ª Fase (Campos disfórico): livre de influências, fase mais pessoal e melancólica.
Associe aos fragmentos abaixo o número correspondente à fase em que se enquadram:
( ) “Por isso eu tomo ópio. É um remédio. Sou um convalescente do Momento. Moro no rés-do-chão do pensamento E ver passar a Vida faz-me tédio.”
( ) “Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!”
( ) “Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
( ) “Heia que eu vou chamar Ao privilégio ruidoso e ensurdecedor de saudar-te Todo o formilhamento humano do Universo, Todos os modos de todas as emoções, Todos os feitios de todos os pensamentos, Todas as rodas, todos os volantes, todos os êmbolos da alma.”
( ) “Súbito, uma angústia... Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma! Que amigos que tenho tido! Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido! Que esterco metafísico os meus propósitos todos!”
A seqüência encontrada é:
a) 3,2,2,3,1. b) 1,2,3,2,3. c) 3,1,2,2,3. d) 1,1,3,2,2.
Em “Uma estória de amor”, de Guimarães Rosa, só NÃO há o emprego de:
a) paródia, já que a primeira missa na Samarra retoma, ironizando, o sentido fundador da primeira missa no Brasil, tal como relatada na Carta, de Caminha.
b) metalinguagem, pelas referências ao modo de falar da região e pelas reflexões sobre o ato de narrar estórias.
c) intertextualidade, pela incorporação de cantigas, quadras e estórias de cunho popular à narrativa principal.
d) discurso indireto livre, dando a conhecer o fluxo de pensamento do protagonista.
Sobre as relações entre o protagonista e as demais personagens de “Uma estória de amor”, a afirmativa CORRETA é:
a) Pelo filho Adelço, Manuelzão experimenta sentimentos contraditórios, já que, embora reconhecendo seu péssimo caráter, não tem dúvidas quanto a torná-lo seu legítimo sucessor.
b) Por Joana Xaviel, Manuelzão sente verdadeira repulsa, sobretudo por desaprovar o encantamento que suas estórias provocavam nos ouvintes.
c) Pelo velho Camilo, Manuelzão exibe enorme desprezo, motivo pelo qual lhe é indiferente durante a festa.
d) Pela nora Leonísia, Manuelzão nutre uma estima e admiração que se desvirtua em atração sexual.
Sobre o romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, a afirmativa INCORRETA é:
a) A voz narrativa usa de ironia para satirizar a literatura tradicional.
b) O narrador Rodrigo S.M. faz freqüentes reflexões metalingüísticas.
c) A invisibilidade social é bastante abordada no livro, principalmente através da personagem Macabéa.
d) A protagonista é Macabéa, uma nordestina, ingênua, que consegue ascender socialmente graças a uma grande oportunidade de trabalho.
“No princípio,/ a casa foi sagrada/ isto é, habitada/ não só por homens e vivos/ como também por mortos e deuses” (Sophia de Mello Breyner).
A epígrafe inicial de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, revela uma característica marcante no livro: a memória ligada à ancestralidade.
Assinale o fragmento do romance em que essa característica se faz presente:
a) “Abstinêncio Mariano despendera a vida inteira na sombra da repartição. A penumbra adentrou-se nele como um bolor e acabou ficando saudoso de um tempo nunca havido, viúvo mesmo sem nunca ter casado.”
b) “Por fim, avisto a nossa casa grande, a maior de toda a Ilha. Chamamo-lhe Nyumba-Kaya, para satisfazer familiares do Norte e do Sul. ‘Nyumba’ é a palavra para nomear ‘casa’ nas línguas nortenhas. Nos idiomas do Sul, casa se diz ‘kaya’.”
c) “Ainda bem que chegou, Mariano. Você vai enfrentar desafios maiores que as suas forças. Aprenderá como se diz aqui: cada homem é todos os outros. Esses outros não são apenas os viventes.”
d) “A cozinha me transporta para distantes doçuras. Como se, no embaciado dos seus vapores, se fabricasse não o alimento, mas o próprio tempo. Foi naquele chão que inventei brinquedo e rabisquei os meus primeiros desenhos.”
Sobre Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, pode-se afirmar, EXCETO:
a) Ultímio, tio de Marianinho, é um personagem ambicioso e influente, que pretende vender Nyumba-Kaya.
b) O protagonista é o narrador, Marianinho, universitário, que há anos reside fora de sua terra natal, ilha de Luar-do-Chão, para a qual retorna devido à morte do avô, Dito Mariano.
c) Dulcineusa, avó do narrador-personagem, era a segunda mulher de Dito Mariano, que já havia se casado anteriormente com Mariavilhosa, falecida em trágico acidente, no qual morre afogada.
d) Uma das mortes enigmáticas do livro é a de Juca Sabão, pai do coveiro Curozero e da bela Nyembeti. O assassinato de Juca choca toda a Ilha. Curozero fora quem abrira a cova para seu próprio pai.
Tendo em vista as perguntas contidas no verso do poema Apontamento, transcrito acima, produza um texto, destinado a ser publicado em revista semanal de circulação nacional, voltada para o público jovem, em que você:
RASCUNHO DO TEXTO