Prova 2 – Língua Portuguesa e Literaturas em Língua Portuguesa

N.o DE ORDEM:

N.o DE INSCRIÇÃO: NOME DO CANDIDATO:

  1. Verifique se este caderno contém dois temas para a elaboração da redação, 20 questões objetivas e/ou qualquer tipo de defeito. Qualquer problema, avise, imediatamente, o fiscal.
  2. Verifique se o número do gabarito deste caderno corresponde ao constante na etiqueta fixada em sua carteira. Se houver divergência, avise, imediatamente, o fiscal.
  3. Confira os campos N.o DE ORDEM, N.o DE INSCRIÇÃO e NOME, conforme o que consta na etiqueta fixada em sua carteira.
  4. O tempo mínimo de permanência na sala é de 1h e 30min após o início da prova.
  5. Redija a redação na folha destinada a esse fim.
  6. Transcreva as respostas deste caderno para a Folha de Respostas, seguindo as respectivas instruções de preenchimento.
  7. No tempo destinado a esta prova (4 horas), está incluído o de preenchimento da Folha de Respostas.
  8. Se desejar, transcreva as respostas deste caderno no Rascunho para Anotação das Respostas constante no final desta prova e destaque-o, para recebê-lo amanhã, ao término da prova. Caso o seu curso não tenha optado pela realização da Prova 3 (Conhecimentos Específicos), o Rascunho para Anotação das Respostas deverá ser retirado, hoje, nesta sala, no horário das 13h15min às 13h30min, mediante apresentação da Cédula de Identidade do candidato. Após esse período, não haverá devolução.
  9. Ao término da prova, levante o braço e aguarde atendimento. Entregue ao fiscal este caderno, a Folha de Respostas e o Rascunho para Anotação das Respostas.

UEM

Comissão Central do Vestibular Unificado

GABARITO 2

TEMA 1

A tirania adolescente

Até poucas décadas atrás, os pais educavam seus filhos com base numa regra simples: cabia a eles exercer sua ascendência sobre a prole de maneira inquestionável, pois – como diziam os avós dos adultos de hoje – criança não tinha direito nem querer. Muita coisa mudou desde então. Com a revolução comportamental dos anos 60, a difusão dos métodos pedagógicos modernos e a popularização da psicologia, a liberdade passou a dar o tom nas relações entre pais e filhos. A tal ponto que hoje se vive o oposto da rigidez que pontificava antes disso: em muitos lares, os pais é que se sentem desorientados e os filhos, na ausência de quem estabeleça limites à sua conduta, assumiram o papel de tiranos. (...)

Até meados dos anos 60, as regras dentro de casa eram impostas implacavelmente aos jovens. Hoje, é prática corrente estabelecê-las de comum acordo entre pais e filhos. Antes, os pais davam broncas, punham os filhos de castigo e cortavam regalias porque era assim que as coisas funcionavam, e ponto final. Hoje, cada sanção precisa ser acompanhada de boas justificativas – e haja suor e lábia para dar 200 explicações. Um dos motivos disso é que os jovens atuais são muito bem informados. (...)

As conseqüências da omissão dos pais na educação podem ser graves. Dados do Ministério da Saúde mostram que mais de 20% das garotas entre 13 e 19 anos já enfrentaram uma gravidez precoce. Por outro lado, uma pesquisa recente revelou que um em cada quatro estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública brasileira já experimentou algum tipo de droga, além do cigarro e das bebidas alcoólicas. Em apenas uma década, a idade do primeiro contato com esse tipo de substância caiu dos 14 para os 11 anos. (...) Jovens educados de maneira negligente correm o risco de se tornar adultos infelizes e desajustados. A falta de limites faz com que muitas vezes essas pessoas se revelem inaptas para lidar com os reveses e frustrações naturais da vida. Elas têm dificuldade para se relacionar em ambientes marcados por hierarquias (como o trabalho) e, em muitos casos, não conseguem nem mesmo se emancipar – tanto do ponto de vista emocional quanto do financeiro.

Excerto do texto da Revista Veja, 18 de fevereiro de 2004.

UEM/CVU

Vestibular de Verão/2007 – Prova 2

GABARITO 2

Língua Portuguesa e Literatura

TEMA 2

Riqueza da Língua

Jerônimo Teixeira

Engavetado desde sua assinatura, em 1990, voltou a assombrar o acordo ortográfico que visa a unificar a escrita do português nos países que o adotam como língua oficial. (...) Essa discussão tem implicações profundas de ordem técnica e comercial, além de provocar ainda mais ansiedade nos milhões de brasileiros mergulhados em dúvidas no seu empenho diário para falar e escrever bem. Dominar a norma culta de um idioma é plataforma mínima de sucesso para profissionais de todas as áreas. Engenheiros, médicos, economistas, contabilistas e administradores que falam de acordo com o português culto e escrevem de acordo com o português padrão têm mais chance de chegar ao topo do que profissionais tão qualificados quanto eles mas sem o mesmo domínio da palavra.

Nas grandes corporações, os testes de admissão concedem à competência lingüística dos candidatos, muitas vezes, o mesmo peso dado à aptidão para trabalhar em grupo ou ao conhecimento de matemática. Diversas pesquisas estabelecem correlações entre tamanho de vocabulário e habilidade de comunicação, de um lado, e ascensão profissional e ganhos salariais, de outro.

Adaptação do texto da Revista Veja, 12 de setembro de 2007. p. 88-96.

UEM/CVU

Vestibular de Verão/2007 – Prova 2

GABARITO 2

Língua Portuguesa e Literatura

LÍNGUA PORTUGUESA

Texto 1

Impostura verde

Marcelo Leite

Hoje em dia ninguém mais cita o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995) em jornal – a não ser, talvez, para criticá-lo. Mesmo quem o conhece mal, porém, não deixará de reconhecer como é

5 certeira sua caracterização do marketing como “a raça impudente de nossos senhores”. Em especial se topar com um anúncio da nova coleção de roupas Diesel. Pessoas sensatas, em tempos normais,

10 pensariam duas vezes antes de adquirir confecções de uma empresa que publica no Brasil anúncios inteiramente em inglês. Só que nosso tempo há muito deixou de ser normal e o Brasil, todos sabem, nunca foi sério.

15 Precisava carimbar a campanha com um “Global Warming Ready”, porém? Para quem não sabe, a frase quer dizer “pronto(a) para o aquecimento global”. Noutro lugar, anuncia-se que são roupas para permanecer “cool” (bacana, ou

20 literalmente, fresco) enquanto o mundo se aquece. As imagens utilizadas são ainda mais loquazes. Numa delas, um rapaz de camisa aberta lambuza com filtro solar a garota em vias de trepar num coqueiro. Seria só ração cotidiana de

25 nonsense da publicidade de moda, não fosse pelo carimbo mencionado e por mostrar no fundo, à esquerda, o mar batendo no topo do que parece ser

o monte Rushmore, nos EUA. A face esculpida em pedra, com água pelo

30 nariz, talvez seja a de Abraham Lincoln. Não aparecem na imagem as outras três do famoso monumento em Dakota do Sul: George Washington, Thomas Jefferson e Theodore Roosevelt. O quarteto de presidentes só se mostra

35 por inteiro noutro quadro, em que um modelo sarado lê um livro com geleiras na capa, deitado na areia da mesma praia. A mesma alusão à elevação do nível dos mares como resultado do aquecimento global surge

40 num plágio deslavado do filme “O Dia Depois de Amanhã”. Em tela, arranha-céus de Nova York (Chicago?) com água na cintura. Nesse álbum disparatado ainda há espaço para araras no lugar dos pombos da praça São

45 Marcos em Veneza, vegetação equatorial ao lado da torre Eiffel e gente de biquíni ao lado de pingüins. Na Antártida, supõe-se.

A publicidade não tem nem precisa ter compromisso com a realidade, sequer com a 50 verossimilhança. Seu liquidificador de signos já nasceu pós-moderno. O que salta aos olhos são os

sobretons frívolos para retratar uma questão de sobrevivência. O aquecimento global virou moda, modismo.

55 Já houve até evento fashion “carbon-neutral”, em que hedonistas compungidos voluntariam uns caraminguás para plantar árvores, não se sabe nem se quer saber onde. Peles de animais, contudo, voltaram a ser chiques. O mundinho é verde, ma

60 non troppo. Ao final, todos montam em seus jipões 4x4 movidos a (muito) diesel e rodam superiores sobre o asfalto esburacado das metrópoles brasileiras. Os mais radicais se filiam a alguma ONG com nome em inglês, claro.

65 Dá vontade de incorporar um “nerd” rápido. Lembrar que Dakota do Sul fica no meio dos Estados Unidos, onde o mar nunca vai chegar (não na escala de tempo que interessa à espécie humana). O monte Rushmore, aliás, está 1.745

70 metros acima do nível do mar, que deve subir só meio metro nos próximos cem anos, segundo a última previsão do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática).

Quem é que quer saber de informação, no

75 entanto? O negócio agora é ser “ambiental”. Qualquer dia desses nasce a grife Biodiesel. Lula vai a-do-rar.

Folha de S. Paulo, 18 de março de 2007. Folha Mais, p. 9.

impudente: que ou o que não tem pudor. loquaz: que fala muito, falador. nonsense: absurdo, disparate. ma non troppo: mas nem tanto. frívolo: superficial, inútil. nerd: pessoa desinteressante, fora de moda; pessoa

extremamente interessada em computador;

pessoa com inteligência acima da média. hedonista: pessoa dedicada ao prazer dos sentidos. compungido: arrependido, aflito moralmente.

01 – A justificativa para o título “Impostura verde” (texto 1) se deve A) à falsa preocupação ambiental por parte do mercado produtor e consumidor de marketing. B) à inadequação entre a localização geográfica e as imagens veiculadas na mídia. C) ao retorno das roupas confeccionadas com peles de animais. D) ao uso inadequado das imagens naturais nas propagandas. E) às informações distorcidas sobre o aquecimento global.

UEM/CVU

Vestibular de Verão/2007 – Prova 2

GABARITO 2

Língua Portuguesa e Literatura

02 – No excerto “A publicidade não tem nem precisa ter compromisso com a realidade, sequer com a verossimilhança.” (texto 1, linhas 48-50), o sentido das expressões grifadas permanece o mesmo, se elas forem substituídas, respectivamente, por A) ou não / muito menos. B) e não / nem mesmo. C) e não / nem menos. D) ou não / nem menos. E) ou não / nem mesmo.

03 – O emprego argumentativo dos sinais de pontuação é freqüente no texto 1. Assinale a alternativa que não aponta adequadamente o seu emprego. A) Em “jornal – a não ser, talvez, para” (linhas 2-3),

o travessão insere uma ressalva. B) Em “nerd” (linha 65), as aspas indicam estrangeirismo. C) Em “ambiental” (linha 75), as aspas indicam ironia. D) Em “(Chicago?)” (linha 42), os parênteses indicam hesitação.

E) Em “(não na escala de tempo que interessa à espécie humana)” (linhas 67-69), os parênteses inserem um comentário.

04 – A expressão “raça impudente de nossos senhores” (texto 1, linha 6), empregada por Gilles Deleuze, significa que a propaganda só se importa com A) a realidade. B) o lucro. C) a verossimilhança. D) a informação. E) a sociedade.

05 – Na visão do autor do texto 1, o “plágio” é “deslavado” (linha 40) porque A) imita passagens de filme conhecido. B) confronta espaços geográficos fictícios. C) ilude o consumidor desatento. D) distingue personagens norte-americanos. E) alude a fatos históricos conhecidos.

06 – De acordo com o terceiro e o quarto parágrafos do texto 1, A) as empresas se valem da questão ambiental para

fins publicitários. B) as pessoas são insensatas ao adquirirem confecções com anúncios em inglês. C) muitos consumidores brasileiros não compreendem inglês. D) o Brasil não trata a questão ambiental com seriedade. E) o aquecimento global é inevitável e é inútil enfrentá-lo superficialmente.

Texto 2

Geração fashion

Paul Vallely, do “The Independent”

Hoje, combater a indústria de peles não quer dizer lutar contra a velha guarda de ricos, conservadores, enrugados e ignorantes usuários de casacos longos de vison. Significa combater uma

5 geração jovem que é fashion, colorida e bem informada. Uma criadora de modas como Katie Grand, editora da revista de moda “Pop”, usa seu novo casaco de vison para ir ao trabalho sem sentir vergonha. Grand, cujo pai é cientista, explica:

10 “Desde criança acostumei-me à idéia de que ele [o pai] faz experiências com animais. Isso nunca me incomodou”.

A compradora típica de uma roupa de pele é uma mulher de 30 e poucos anos, de renda média, 15 que compra protetores de ouvido de pele de coelho da Chanel ou um casaco da Zara com gola de pele de coiote por menos de US$150. E, em lugar de estar desafiando o velho establishment, ela demonstra que não dá a mínima para o novo 20 establishment marcado pela correção política liberal, verde e de esquerda. Peso na consciência por estar usando pele é algo tão fora de moda quanto xales de pashmina (pêlos de cabras do Tibete). O único consolo que resta ao lobby dos

25 “antipeles” é a esperança de que, já que a moda é por definição volátil e mutante, não demore muito para as roupas de pele serem mais uma vez vistas como inaceitáveis.

Texto adaptado de <http://www.herbario.com.br/atual04/2411guerrapelles.htm>. Acesso em 11/09/2007.

establishment: ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui uma sociedade ou um Estado.

As questões de 07 a 09 referem-se aos textos 1 e 2.

07 – Assinale a alternativa em que o adjetivo em negrito funciona como advérbio. A) “Dá vontade de incorporar um ‘nerd’ rápido.” (texto 1, linha 65) B) “...a moda é por definição volátil...” (texto 2, linhas 25-26) C) “...deixou de ser normal...” (texto 1, linha 13) D) “As imagens utilizadas são ainda mais loquazes.” (texto 1, linhas 21-22) E) “...geração jovem que é fashion, colorida e bem informada.” (texto 2, linhas 5-6)

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Vestibular de Verão/2007 – Prova 2

GABARITO 2

Língua Portuguesa e Literatura

08 – Nas orações a seguir, ocorre processo de metonímia, exceto em A) “...jipões 4x4 movidos a (muito) diesel...” (texto 1, linhas 60-61) B) “...protetores de ouvido de pele de coelho da Chanel...” (texto 2, linhas 15-16) C) “...ou um casaco da Zara...” (texto 2, linha 16) D) “...fora de moda quanto xales de pashmina...” (texto 2, linhas 22-23) E) “...da nova coleção de roupas Diesel.” (texto 1, linhas 7-8)

09 – Assinale a alternativa correta quanto ao conteúdo dos textos 1 e 2. A) Ambos apontam as contradições no comportamento dos indivíduos. B) Ambos se referem à extinção de animais para confecção de casacos de pele. C) Ambos fazem alusão ao discurso do politicamente correto. D) Ambos se referem a consumidores que se dedicam ao prazer dos sentidos pessoais. E) Ambos aludem à inconstância dos padrões ditados pela moda.

10 – As orações a seguir foram retiradas do texto 2. Assinale a alternativa cuja oração está corretamente analisada. A) “...não quer dizer lutar contra a velha guarda

de ricos...” (linhas 1-2) (oração subordinada substantiva subjetiva reduzida de infinitivo)

B) “...acostumei-me à idéia de que ele [o pai] faz experiências com animais.” (linhas 10-11) (oração subordinada substantiva completiva nominal)

C) “...usa seu novo casaco de vison para ir ao trabalho...” (linhas 7-8) (oração subordinada adverbial temporal reduzida de infinitivo)

D) “Peso na consciência por estar usando pele é algo tão fora de moda...” (linhas 21-22) (oração subordinada substantiva objetiva indireta reduzida de gerúndio)

E) “...ela demonstra que não dá a mínima para o novo establishment...” (linhas 18-20) (oração subordinada adjetiva restritiva)

11 – Segundo o texto 2, a geração jovem usa roupas com pele porque A) não tem senso de preservação da natureza. B) quer se opor ao discurso de correção política. C) está na moda. D) alguns animais se prestam a experiências. E) o preço é acessível.

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Vestibular de Verão/2007 – Prova 2 GABARITO 2 Língua Portuguesa e Literatura

As questões 12 e 13 referem-se às tirinhas abaixo.

12 – Assinale a alternativa incorreta quanto ao que se pode inferir da leitura das tirinhas. A) Mafalda toma sopa com freqüência e a contragosto. B) Mafalda entende que os assuntos importantes são alheios às relações familiares. C) Mafalda vê os deveres de casa como uma obrigação inútil. D) Mafalda, ao contrário do que escreve, não é mimada pela mãe. E) Mafalda imagina que a professora tenha uma relação hipócrita com a própria mãe.

13 – Assinale a alternativa incorreta quanto ao emprego dos elementos lingüísticos utilizados nas duas tirinhas. A) A expressão “parabéns” denota ironia. B) A forma verbal “ensine” se encontra no modo imperativo. C) A expressão “agora” é empregada como delimitadora de tempo anterior e posterior. D) A expressão “de duas uma” introduz um ultimato. E) O conectivo “ou”, empregado duas vezes, expressa condição.

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GABARITO 2 Vestibular de Verão/2007 – Prova 2 Língua Portuguesa e Literatura

LITERATURAS EM LÍNGUA PORTUGUESA

14 – Leia os fragmentos a seguir.

“[...] O senhor me crê? E foi então que eu acertei com a verdade fiel: que aquela raiva estava em mim, produzida, era minha sem outro dono, como coisa solta e cega. As pessoas não tinham culpa de naquela hora eu estar passeando pensar nelas. Hoje, que enfim eu medito mais nessa agenciação encoberta da vida, fico me indagando: será que é a mesma coisa com a bebedice de amor? Toleima. O senhor ainda me releve. Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho que Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa de autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é.”

(ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas.)

“Oh como era bom rever tudo arrumado e sem poeira, tudo limpo pelas suas próprias mãos destras, e tão silencioso, e com um jarro de flores, como uma sala de espera. Sempre achara lindo uma sala de espera, tão respeitoso, tão impessoal. Como era rica a vida comum, ela que enfim voltava da extravagância. Até um jarro de flores. Olhou-o. [...] Eram algumas rosas perfeitas, várias no mesmo talo. Em algum momento tinham trepado com ligeira avidez umas sobre as outras, mas depois, o jogo feito, haviam se imobilizado tranqüilas. Eram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas, e o tom rosa era quase branco. [...] Como são lindas, pensou Laura surpreendida. Mas, sem saber por que, estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. Oh, nada de mais, apenas acontecia que a beleza extrema a incomodava.”

(LISPECTOR, Clarice. A imitação da rosa. In: Laços de família.)

Tendo em vista esses fragmentos, as obras dos autores, bem como as afirmações I, II e III que seguem, assinale a alternativa correta.

I. Considerado uma das grandes tendências da literatura brasileira, o regionalismo recebe nova roupagem na obra de Guimarães Rosa. De um lado, está a experimentação com a linguagem, por meio da incorporação de termos regionais, da criação de neologismos e pelo emprego de uma nova sintaxe; de outro, está a personagem regional, ultrapassando a problemática decorrente do próprio espaço físico e adentrando a seara dos questionamentos universais, como bem se pode verificar no fragmento transcrito.

II. Inaugurando a principal vertente da terceira geração do Modernismo brasileiro, a prosa psicológica, Clarice Lispector confere ao texto literário a tão reivindicada linearidade narrativa. Apesar de interessarem à escritora as narrativas baseadas na memória e na emoção, portanto no fluxo de consciência e no monólogo interior, tais estratégias são construídas de tal modo que seja respeitada a ordem cronológica. No conto cujo fragmento transcrevemos, o leitor não encontra dificuldades em reconhecer o começo,

o meio e o fim.

III. Ambos os autores dos textos em destaque representam os principais idealizadores da chamada narrativa universalizante, uma importante marca da terceira geração modernista. No cerne da linguagem revolucionária que engendra, Guimarães Rosa traz à tona as indagações universais do homem, como o sentido da vida e da morte, a existência ou não de Deus e do diabo, o significado do amor, do ódio etc. Já a literatura produzida por Clarice Lispector surpreende por definir-se pela busca da compreensão da consciência individual, marcada pela introspecção da personagem.

A) Apenas I está correta. B) Apenas I e II estão corretas. C) Apenas I e III estão corretas. D) Apenas II e III estão corretas. E) I, II e III estão corretas.

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Vestibular de Verão/2007 – Prova 2 GABARITO 2 Língua Portuguesa e Literatura

15 – Sobre os grandes enfoques e/ou temas da literatura brasileira, assinale a alternativa correta. A) O modo de representação do patriotismo na literatura brasileira do período pré-modernista, a exemplo do que acontece em Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, é marcado pela idealização de uma República bem sucedida e pela construção da imagem heróica e nobre das autoridades governamentais brasileiras, como, por exemplo, o Marechal Floriano Peixoto. B) A linguagem literária consistiu em uma das principais preocupações dos modernistas brasileiros. O objetivo era abrasileirar a língua portuguesa, rompendo com uma tradição literária que insistia em valer-se do português erudito, de pesada influência lusitana, para compor seus escritos. Em Macunaíma, Mario de Andrade põe em discussão essa questão, salientando o abismo existente entre a linguagem escrita e a falada, no Brasil. C) Na prosa contemporânea, um dos principais temas desenvolvidos é o da violência, como se pode observar na contística de escritores como Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. No entanto, a abordagem do tema é sempre realizada do ponto de vista das classes dominantes, de tal modo que a construção das figuras marginalizadas aparece pautada na degradação moral e na questão da má índole. D) O grande tema da poesia parnasiana brasileira é a análise profunda do ser humano e de suas angústias morais e metafísicas, reflexo da vida em uma sociedade em crise, como bem se pode perceber nos sonetos de Alberto de Oliveira e de Raimundo Correia. Trata-se de um processo de amadurecimento em relação à poesia romântica, essencialmente desinteressada da indagação acerca do sentido da existência, de Deus, da morte etc. E) Embora a ficção de José de Alencar seja classificada como genuína representante do Romantismo brasileiro, o modo como a figura feminina aparece aí representada é mais condizente com a ideologia do Realismo. Tomem-se como exemplo as personagens Diva e Lucíola dos romances homônimos, protótipos da mulher realista, mais humanizada, sem atenuantes para os sentimentos e as ações menos nobres, como a inveja, a mentira e a hipocrisia.

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16 – Sobre o romance Os ratos, de Dyonélio Machado, e São Bernardo, de Graciliano Ramos, assinale a alternativa correta. A) Ambos os romances foram publicados na década de 1930, sendo, portanto, autênticos representantes do chamado “romance de 30”, cuja característica primordial é a temática agrária. Mas, enquanto o romance de Graciliano Ramos focaliza a fazenda São Bernardo e discute

o choque de ideologias entre o proprietário Paulo Honório e sua esposa Madalena, o de Dyonélio Machado expressa o desejo do protagonista Naziazeno Barbosa em deixar a cidade grande e migrar para o campo em busca de melhores condições de vida para sua família.

B) Trata-se de dois romances urbanos, publicados na década de 30, mas que não guardam relação alguma com o denominado “romance de 30”. São romances escritos dentro de uma linha realista-naturalista que não se enquadram na temática agrária, nem assumem uma perspectiva marcada pela criticidade em relação aos problemas políticos e sociais que assolavam o país naquele período.

C) São dois romances da mesma década, que se desenvolvem no âmbito da temática agrária e de grande parte das características peculiares à classificação “romance de 30”, como o engajamento social; mas diferem substancialmente um do outro no que se refere à linguagem. Enquanto São Bernardo serve-se de uma linguagem clara, coloquial, próxima do código culto urbano, o romance do escritor gaúcho foi talhado segundo o código intimista que seria, mais tarde, aprimorado por Clarice Lispector, em que o fluxo da consciência borra os limites espaço-temporais e torna a linguagem mais hermética.

D) Os dois romances dados a público na década de 1930 contribuem com a consolidação de alguns dos ideais modernistas da primeira geração, como a fuga da linguagem acadêmica e o interesse mais crítico pela realidade social brasileira. No entanto, enquanto São Bernardo integra a chamada prosa regionalista nordestina que marca o período – também conhecida pela denominação de “romance de 30” –, Os ratos, de Dyonélio Machado, enquadra-se na chamada ficção psicológica que, igualmente, fez-se presente na época. A primeira obra, de modo geral, enfoca a submissão do homem ao latifúndio, a ignorância e as mazelas políticas da região nordeste; já a segunda debruça-se sobre questões psicológicas e conflitos íntimos do homem urbano em situação de penúria financeira.

E) Ambos os autores são dissidentes da ideologia modernista, não só no que se refere ao estilo empregado – uma vez que se valem de uma linguagem literária acentuadamente marcada pela tradição –, mas, sobretudo, no que toca a postura político-ideológica assumida frente ao contexto em que surgem as obras. Nesse sentido, São Bernardo e Os ratos não refletem o engajamento social que marcava a literatura da época, impregnada de um otimismo em relação às possibilidades de reformas políticas e sociais que poderia ser qualificado de “ingênuo”.

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17 Considere o texto abaixo e assinale a única alternativa correta.

O destro Cupido um dia Extraiu mimosas cores De frescos lírios, e rosas, De jasmins, e de outras flores.

Com as mais delgadas penas Usa de uma, e de outra tinta, E nos ângulos do cobre A quatro belezas pinta.

Por fazer pensar a todos No seu liso centro escreve Um letreiro, que pergunta: “Este espaço a quem se deve?

Vênus, que viu a pintura, E leu a letra engenhosa, Pôs por baixo “Eu dele cedo; “Dê-se a Marília formosa.

(GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu, Lira

XXVI, Parte I.)

A) O poema é composto de quatro estrofes em redondilha maior e apresenta uma estrutura formal rígida (estrofes e esquema completo de rimas regulares e emparelhadas) e, ao mencionar as cores e as flores, o eu-lírico revela a visão realista da existência.

B) O poema é composto de quatro estrofes de versos em redondilha maior e rimas alternadas, marcando a presença de personagens da mitologia clássica (Vênus e Cupido) para exaltar os prazeres da vida física: a beleza sedutora e o amor carnal.

C) No poema em questão, evidencia-se a presença de personagens da mitologia clássica nos versos “O destro Cupido um dia” e “Vênus, que viu a pintura”, sugerindo que se deve aproveitar a mocidade, fase da vida em que a beleza e o prazer são maiores e mais intensos.

D) No poema em questão, Cupido é o hábil pintor que recorre à natureza (frescos lírios, rosas,/ jasmins, outras flores), o locus amoenus (lugar ameno e agradável dos árcades), extraindo dela as cores com que pinta e eleva a beleza de Marília, aceita e reconhecida por Vênus.

E) Nos versos da última estrofe, a figura de Vênus, deusa do amor e da beleza, representa o amor como um sentimento capaz de construir um mundo ideal, inspirado na beleza das cores e das flores.

18 – No estudo de um poema, o reconhecimento dos recursos utilizados pelo poeta constituem um importante fator para a compreensão das idéias. Leia os versos abaixo e, a seguir, assinale a alternativa correta, quanto ao uso da linguagem.

Grinaldas e véus brancos, véus de neve, Véus e grinaldas purificadores, Vão as Flores carnais, as alvas Flores Do Sentimento delicado e leve.

(SOUSA, Cruz e. Obra poética.

Rio de Janeiro: Aguilar, 1961.)

A) A estrofe acima, quanto ao aspecto formal, apresenta os recursos utilizados pelo poeta para obter ritmo e musicalidade: os versos são redondilhas maiores, a sonoridade é expressiva e

o ritmo é musical, elementos indicadores da pureza de sentimentos nobres.

B) A estrofe acima apresenta em seus versos o emprego de substantivos (brancos, purificadores, carnais, alvas, delicado) que revelam subjetivismo, angústia e paixão pelo ser amado.

C) A estrofe é marcada, desde o início, por uma descrição metonímica (a parte pelo todo) por meio das palavras grinaldas, véus, flores, Sentimento, que conduzem à metáfora Flores carnais (a mulher), referindo-se à beleza da natureza concreta, física, como o único refúgio do eu-lírico.

D) Os versos são marcados pelo uso de maiúsculas (Flores; Sentimento), cujo efeito poético pretendido é materializar essa flor e situá-la em um jardim esplendoroso e, com isso, enfatizar a obsessão do eu-lírico pela beleza e pelo amor.

E) Os versos são marcados pelo uso de substantivos e adjetivos expressivos: grinaldas e véus brancos, véus de neve; purificadores; alvas Flores; delicado e leve, além do uso de maiúsculas (Flores; Sentimento) e aliterações (uso constante do “v” e do “s”) como recursos poéticos cujo efeito é sugerir a brancura, a leveza e a delicadeza do sentimento amoroso.

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19 – Sobre estilos de época na literatura, assinale a alternativa incorreta. A) A literatura barroca surge como conseqüência das modificações político-sociais que se intensificam no mundo ocidental, na segunda metade do século XVI. O homem barroco debate-se entre a carne e o espírito, o sensualismo e o misticismo. Esses contrastes ultrapassam o plano das idéias e atingem o da linguagem artística, resultando no cultismo (jogos de palavras) e no conceptismo (jogos de conceitos e de idéias), como exemplificam os versos a seguir:

“Maldade, que encaminha a vaidade, Vaidade, que todo me há vencido; Vencido quero ver-me e arrependido, Arrependido a tanta enormidade.”

B) Parnasianismo é a denominação específica do movimento poético que surgiu ao lado da prosa realista e naturalista, fase de desenvolvimento do cientificismo, da filosofia positivista e da visão materialista do mundo e do homem, na segunda metade do século XIX. Os poetas parnasianos apreciavam uma arte voltada para si mesma, interessada na beleza formal e na descrição de exterioridades, objetos, cenas e quadros, como nos versos abaixo:

“A lua banha a solitária estrada ... Silêncio ... Mas além, confuso e brando, O som longínquo vem-se aproximando do galopar de estranha cavalgada.”

C) A poesia simbolista surge no final do século XIX como uma espécie de reflexo dos problemas sociais desencadeados pela Revolução Industrial. Tendo isso em vista, os principais traços que vão marcar essa produção poética podem assim ser resumidos: objetividade, engajamento social, conhecimento intuitivo da realidade, fé nos avanços científicos do tempo, linguagemsugestiva. É o que se pode constatar no fragmento do poema de Cruz e Souza transcrito abaixo:

“Para as estrelas de cristais gelados as ânsias e os desejos vão subindo, Galgando azuis e siderais noivados De nuvens brancas a amplidão vestindo...

D) Uma importante tendência da poesia brasileira contemporânea é o Concretismo, cuja proposta está calcada no interesse pela comunicação visual. Ao invés do discurso tradicional, privilegia os recursos gráficos das palavras, daí suas principais características: resistência ao verso tradicional, aproveitamento do espaço, exploração do significante, rejeição do lirismo e possibilidade de leituras múltiplas, como ocorre no poema que segue:

“beba coca cola babe cola beba coca babe cola caco caco cola

cloaca”

E) No âmbito da prosa, o realismo mágico ou o fantástico contemporâneo consiste em uma vertente das últimas décadas no Brasil. Trata-se de os escritores tematizarem a tensão dos limites entre o possível e o impossível, entre o real e o sobrenatural, entre o social e o sobressocial. Um exemplo é o conto “A máquina extraviada”, de José J. Veiga, revelando o culto a uma máquina que aparece na cidadezinha, mesmo que os habitantes não saibam a sua origem e serventia, como demonstra o fragmento a seguir:

“Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no largo, que se um dia ela desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse buscá-la, provando com documentos que tinha direitos, eu nem sei o que aconteceria, nem quero pensar. Ela é nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância.”

UEM/CVU

Vestibular de Verão/2007 – Prova 2 GABARITO 2 Língua Portuguesa e Literatura

20 – Considerando o fragmento abaixo, assinale a alternativa correta.

Era no tempo do rei. Uma das quatro esquinas que formam as ruas do Ouvidor e da Quitanda cortando-se mutuamente chamava-se nesse tempo – O canto dos meirinhos –; e bem lhe assentava o nome, porque era aí o lugar de encontro favorito de todos os indivíduos dessa classe (que gozava então de pequena consideração). Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei; esses eram gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária que envolvia todo o Rio de Janeiro no tempo em que a demanda era entre nós um elemento de vida: o extremo oposto eram os desembargadores. Ora, os extremos se tocam, e estes, tocando-se, fechavam o círculo dentro do qual passavam os terríveis combatentes de citações, provarás, razões principais e finais e todos esses trejeitos judiciais que chamava o processo. Daí sua influência moral.

(ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Moderna, 1993.)

A) No romance de Manuel Antônio de Almeida, o ambiente social em que transcorre a ação é o Rio de Janeiro. Romance monótono nas suas intrigas jurídicas pela ação dos desembargadores e meirinhos (“gente temível e temida, respeitável e respeitada; formavam um dos extremos da formidável cadeia judiciária”), pode ser considerado um romance de “fórum” por apresentar uma série de debates sobre as leis e as audiências que envolvem a personagem malandra de Leonardo Pataca.

B) Memórias de um sargento de milícias é uma obra que retrata a vida requintada do Rio de Janeiro, personagens populares e da alta sociedade, como desembargadores e meirinhos, documentando debates, costumes diversos, como procissões, vida em família e, principalmente, hábitos de pessoas refinadas que ofereciam festas nos salões aristocráticos.

C) Memórias de um sargento de milícias é uma obra inovadora para sua época e pode ser considerada

o romance de costumes do Romantismo brasileiro, que privilegia a cultura aristocrática urbana e seu caráter requintado, mas revela certos costumes das personagens simples do povo, tais como freqüentar festas religiosas e encontros festivos (piqueniques) fora da cidade.

D) O romance em questão é considerado pela crítica especializada o documento fiel de uma determinada época: o período de D. João VI no Brasil e o sinal de mudança da mentalidade colonial para a vida aristocrática, representada pelos costumes da maioria das personagens que compõe a obra, como, por exemplo, a vida em família e os luxuosos bailes na Corte.

E) O romance Memórias de um sargento de milícias apresenta um verdadeiro quadro de costumes, ao retomar o período de D. João VI no Brasil (“Era no tempo do rei; Os meirinhos de hoje não são mais do que a sombra caricata dos meirinhos do tempo do rei”). Transformações e mudança de contexto colonial para a vida da Corte são descritas nas atividades que mostram aspectos da vida social da época, tais como danças, vida em família e eventos religiosos (procissões, por exemplo).

UEM/CVU

GABARITO 2 Vestibular de Verão/2007 – Prova 2 Língua Portuguesa e Literatura