VESTIBULAR 2008

ÁREA DE HUMANIDADES PROVA DE CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS

CADERNO DE QUESTÕES

INSTRUÇÕES

  1. PREENCHER COM SEU NOME E NÚMERO DA CARTEIRA OS ESPAÇOS INDICADOS NA ÚLTIMA PÁGINA DESTE CADERNO.
  2. ASSINAR COM CANETA DE TINTA AZUL OU PRETA A CAPA DO SEU CADERNO DE RESPOSTAS, NO LOCAL INDICADO.
  3. ESTA PROVA CONTÉM 25 QUESTÕES E TERÁ DURAÇÃO DE 4 HORAS.
  4. O CANDIDATO SOMENTE PODERÁ ENTREGAR O CADERNO DE RESPOSTAS E SAIR DO PRÉDIO DEPOIS DE TRANSCORRIDAS 2 HORAS, CONTADAS A PARTIR DO INÍCIO DA PROVA.
  5. AO SAIR, O CANDIDATO LEVARÁ ESTE CADERNO E O CADERNO DE QUESTÕES DA PROVA DE CONHECIMENTOS GERAIS.

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INSTRUÇÃO: Leia atentamente o texto a seguir, que servirá de base para as respostas de questões de História, Geografia e Língua Portuguesa.

Os sertões

A Serra do Mar tem um notável perfil em nossa história. A prumo sobre o Atlântico desdobra-se como a cortina de baluarte desmedido. De encontro às suas escarpas embatia, fragílima, a ânsia guerreira dos Cavendish e dos Fenton. No alto, volvendo o olhar em cheio para os chapadões, o forasteiro sentia-se em segurança. Estava sobre ameias intransponíveis que o punham do mesmo passo a cavaleiro do invasor e da metrópole. Transposta a montanha — arqueada como a precinta de pedra de um continente

era um isolador étnico e um isolador histórico. Anulava o apego irreprimível ao litoral, que se exercia ao norte; reduzia-o a estreita faixa de mangues e restingas, ante a qual se amorteciam todas as cobiças, e alteava, sobranceira às frotas, intangível no recesso das matas, a atração misteriosa das minas...

Ainda mais — o seu relevo especial torna-a um condensador de primeira ordem, no precipitar a evaporação oceânica.

Os rios que se derivam pelas suas vertentes nascem de algum modo no mar. Rolam as águas num sentido oposto à costa. Entranham-se no interior, correndo em cheio para os sertões. Dão ao forasteiro a sugestão irresistível das entradas.

A terra atrai o homem; chama-o para o seio fecundo; encanta-o pelo aspecto formosíssimo; arrebata-o, afinal, irresistivelmente, na correnteza dos rios.

Daí o traçado eloqüentíssimo do Tietê, diretriz preponderante nesse domínio do solo. Enquanto no S. Francisco, no Parnaíba, no Amazonas, e em todos os cursos d’água da borda oriental, o acesso para o interior seguia ao arrepio das correntes, ou embatia nas cachoeiras que tombam dos socalcos dos planaltos, ele levava os sertanistas, sem uma remada, para o rio Grande e daí ao Paraná e ao Paranaíba. Era a penetração em Minas, em Goiás, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso, no Brasil inteiro. Segundo estas linhas de menor resistência, que definem os lineamentos mais claros da expansão colonial, não se opunham, como ao norte, renteando o passo às bandeiras, a esterilidade da terra, a barreira intangível dos descampados brutos.

Assim é fácil mostrar como esta distinção de ordem física esclarece as anomalias e contrastes entre os sucessos nos dous pontos do país, sobretudo no período agudo da crise colonial, no século XVII.

Enquanto o domínio holandês, centralizando-se em Pernambuco, reagia por toda a costa oriental, da Bahia ao Maranhão, e se travavam recontros memoráveis em que, solidárias, enterreiravam o inimigo comum as nossas três raças formadoras, o sulista, absolutamente alheio àquela agitação, revelava, na rebeldia aos decretos da metrópole, completo divórcio com aqueles lutadores. Era quase um inimigo tão perigoso quanto o batavo. Um povo estranho de mestiços levantadiços, expandindo outras tendências, norteado por outros destinos, pisando, resoluto, em demanda de outros rumos, bulas e alvarás entibiadores. Volvia-se em luta aberta com a corte portuguesa, numa reação tenaz contra os jesuítas. Estes, olvidando o holandês e dirigindo-se, com Ruiz de Montoya a Madri e Díaz Taño a Roma, apontavam-no como inimigo mais sério.

De feito, enquanto em Pernambuco as tropas de van Schkoppe preparavam o governo de Nassau, em São Paulo se arquitetava o drama sombrio de Guaíra. E quando a restauração em Portugal veio alentar em toda a linha a repulsa ao invasor, congregando de novo os combatentes exaustos, os sulistas frisaram ainda mais esta separação de destinos, aproveitando-se do mesmo fato para estadearem a autonomia franca, no reinado de um minuto de Amador Bueno.

Não temos contraste maior na nossa história. Está nele a sua feição verdadeiramente nacional. Fora disto mal a vislumbramos nas cortes espetaculosas dos governadores, na Bahia, onde imperava a Companhia de Jesus com o privilégio da conquista das almas, eufemismo casuístico disfarçando o monopólio do braço indígena.

(EUCLIDES DA CUNHA. Os sertões. Edição crítica de Walnice Nogueira Galvão. 2 ed. São Paulo: Editora Ática, 2001, p. 81-82.)

HISTÓRIA
  1. Por que Euclides da Cunha considera o rio Tietê fundamental para a exploração colonial e qual é a sua situação nos tempos atuais, em seu trecho paulistano?
  2. Segundo o texto de Euclides da Cunha, houve duas colonizações portuguesas no Brasil, diferentes e contrastantes. Escreva sobre as diferenças apresentadas pelo texto entre a colonização do norte e a do sul, no que se refere à relação dos colonos com a metrópole portuguesa.
  3. Sobre o “domínio holandês” citado por Euclides da Cunha, explique os interesses econômicos em jogo e identifique os grupos sociais envolvidos nos “choques memoráveis” travados no período dessa ocupação.
  4. Processos de colonização distintos, como os apresentados pelo texto, dificultaram a integração econômica do vasto território brasileiro. Qual foi a contribuição da exploração de metais preciosos, no século XVIII, e a da industrialização, no século XX, para uma maior integração econômica e territorial do país?
  5. Os territórios da América colonial, onde foram encontradas grandes jazidas de metais preciosos, pertenciam à Espanha e a Portugal. Apesar dessas riquezas, Espanha e Portugal não se industrializaram no século XVIII, como a Inglaterra. Caracterize a relação entre exploração colonial, baixo desenvolvimento industrial dos países ibéricos e industrialização da Inglaterra.
  6. A palavra colonização deriva do verbo latino colo, com significado de “morar e ocupar a terra”. Nesse sentido geral, o termo colonização aplica-se a deslocamentos populacionais que visam ocupar e explorar novas terras. Nos séculos VIII e VII a.C., os gregos fundaram cidades na Ásia Menor, na península itálica, na Sicília, no norte da África. Identifique algumas das características desse processo de colonização que o diferenciam da colonização realizada pelos europeus no continente americano nos séculos XVI ao XIX.

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07. Observe a fotografia dos habitantes de Canudos aprisionados pelas tropas federais em 1897.

Desde o final do século XIX, o sertão tem sido tema de diversas obras literárias, cinematográficas, musicais e plásticas, de que são exemplos Os sertões, de Euclides da Cunha, Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, Romaria, de Renato Teixeira e, em certa medida, Abaporu, de Tarsila do Amaral. Indique duas obras, além das citadas, alusivas à figura do sertanejo, e descreva seus conteúdos.

09. Observe as imagens.

Juscelino Kubitschek com Garrincha (1958). Pelé com Emílio Garrastazu Médici (1970).

Modalidade esportiva importada da Inglaterra, o futebol foi de tal forma incorporado pela sociedade brasileira, que se tornou um acontecimento cultural e político de massa. O filme O ano em que meus pais saíram de férias, ambientado na Copa do Mundo de 1970, tem como tema as múltiplas faces desse fenômeno na cultura brasileira. Compare as figuras acima à luz dos respectivos contextos históricos, observando seus aspectos semelhantes e contrários, e escreva sobre o significado cultural e político do futebol para a história da sociedade brasileira.

10. Onde quer que tenha conquistado o Poder, a burguesia (...) afogou os fervores sagrados do êxtase religioso (...) nas águas geladas do cálculo egoísta. (...) Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo (...) Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolvem-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações.

(Marx e Engels. Manifesto de 1848.)

Lakshmi Mittal, presidente de origem indiana da Mittal Steel, a maior siderúrgica do mundo, provocou um terremoto na Argélia. A empresa argelina (...) rompeu no início do mês um dos tabus mais enraizados na Argélia, o chamado popularmente fim-de-semana islâmico, que inclui a quinta e a sexta-feira. (...) Para as empresas e os órgãos argelinos que mantêm relações com o estrangeiro, a defasagem entre um fim-de-semana [o islâmico] e outro [o universal, no sábado e domingo] “é uma tremenda complicação”. Eles só têm três dias úteis por semana (segundas, terças e quartas) para trabalhar com o resto do mundo...

(El País, 19.06.2007.)

Escritos em épocas distintas e tendo naturezas distintas, os textos não deixam de manifestar algumas semelhanças de conteúdo. Compare-os e indique essas semelhanças.

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GEOGRAFIA

INSTRUÇÃO: As questões de números 11 a 15 devem ser respondidas com apoio no texto Os sertões, de Euclides da Cunha.

11. No texto, Euclides da Cunha refere-se à Serra do Mar. Observe

o mapa.

UNIDADES DO RELEVO E ESTRUTURA GEOLÓGICA DO ESTADO DE SÃO PAULO.

Identifique a unidade geomorfológica onde se insere a Serra do Mar, justificando as palavras do autor – era um isolador étnico e um isolador histórico.

12. Euclides da Cunha refere-se também ao litoral: reduzia-o a estreita faixa de mangues e restingas, ... Defina e caracterize estas formações litorâneas, citando o tipo de exploração econômica típica do manguezal.

13. O mapa representa a cobertura vegetal original do Brasil.

Identifique a formação vegetal que corresponde à citação de Euclides da Cunha: ... intangível no recesso das matas, ... e indique a mudança fundamental ocorrida nesta formação vegetal ao longo dos últimos sessenta anos.

14. Observe a figura.

Identifique e explique o fenômeno representado. Em que trecho do texto Euclides da Cunha a ele se refere?

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15. Considere este trecho do texto de Euclides da Cunha: ... ele levava os sertanistas, sem uma remada, para o rio Grande e daí ao Paraná e ao Paranaíba. Era a penetração em Minas, em Goiás, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso, no Brasil inteiro. A seguir, observe o mapa.

Identifique o rio e a bacia hidrográfica a que o autor se refere na primeira parte do texto. Qual é a denominação da bacia hidrográfica internacional que permite que estas águas brasileiras cheguem ao Oceano Atlântico?

16. Observe as áreas 1 e 2, identificadas na figura, e analise os dados da tabela.

Área 1 Área 2

INDICADORES SOCIOECONÔMICOS EM DUAS ÁREAS URBANAS,

EM 2005.
Indicadores Área 1 Área 2
IDH 0,61 0,89
Analfabetismo 18% 2%
Número médio de anos de estudo 3,7 11,9
Acesso à Universidade 2,0% 55%
Renda per capita R$ 153,00 R$ 1.743.00
Salário médio R$ 214,00 R$ 2.042,00

(IBGE, IPEA, 2006.)

Utilizando os indicadores socioeconômicos da tabela, compare e descreva cada área, identificando o conceito geográfico que as diferencia.

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17. Na figura 1 está representado, por meio de uma caricatura, um processo mundial em andamento no planeta Terra.

Figura 1

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18. O perfil de solo representado na figura 1 mostra os três horizontes encontrados no local do acidente da Linha 4 do Metrô de São Paulo, em janeiro de 2007.

Figura 1

Figura 2

Utilizando seus conhecimentos geográficos, justifique o acidente ocorrido através da análise da figura 1 e da sua localização na planta da cidade (figura 2).

19. A sigla BRIC está sendo utilizada para indicar o grupo de países emergentes composto pelo Brasil, Rússia, Índia e China. Analise a tabela e o gráfico relativos à produção de aço em 2005 e 2006.

PRODUÇÃODEAÇOEMALGUNSPAÍSESEMERGENTES,

EM 2005 E 2006.
Produção em milhões
Países de toneladas Variação (em %)
2005 2006
Brasil 31,6 30,9 –2,2
Rússia 66,1 70,8 7,1
Índia 40,8 44,0 7,7
China 353,5 418,7 18,5
(IISI, 2007.)

AÇO – PRODUÇÃO MUNDIALPOR REGIÃO, EM 2005 E 2006.

(IISI, 2007.)

Descreva a produção de aço do Brasil, comparando-a com a dos demais países da tabela. Identifique a região do mundo onde está principalmente concentrada essa produção, analisando sua participação no total mundial.

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LÍNGUA PORTUGUESA

INSTRUÇÃO: As questões de números 20 a 25 tomam por base

o mesmo texto utilizado para algumas questões de História e Geografia, Os sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909).

  1. Representante do pré-modernismo brasileiro e um dos maiores nomes de nossa literatura, Euclides da Cunha nos encanta pelo vigor e variedade de seus procedimentos de estilo. Neste sentido, um dos recursos notáveis de Os sertões é o das personificações na descrição de acidentes geográficos, que em seu texto parecem dotados de vontade e atitude própria, o que confere bastante dramaticidade a passagens como a apresentada. Tomando por base este comentário, releia o período que constitui o quarto parágrafo e explique o procedimento da personificação ou prosopopéia que nele ocorre.
  2. O escritor se serve, no fragmento apresentado, da alternância de dois tempos verbais, conforme queira diferençar aspectos propriamente físicos, descritivos, de aspectos de ordem narrativa ou histórica. Releia o primeiro parágrafo do fragmento e identifique os dois tempos verbais que o escritor utiliza com essa finalidade.
  3. Um dos aspectos em que Euclides da Cunha busca alguns de seus melhores efeitos é o da adjetivação, que torna seu discurso ao mesmo tempo vário e expressivo, razão pela qual alguns o consideram, comparando-o com poetas ainda ativos em sua época, um “prosador parnasiano”. Releia com atenção

o último parágrafo do texto apresentado e, a seguir, aponte três dos adjetivos que nele ocorrem.

  1. Dentro das linhas de força do pré-modernismo, que levavam os escritores a uma nova e mais objetiva interpretação do país e de seus problemas, Euclides da Cunha, no último parágrafo do texto, levanta crítica à Companhia de Jesus, atribuindo-lhe, por exemplo, com ironia brotada do conhecimento histórico, a “conquista das almas”, isto é, a catequese dos indígenas brasileiros. Releia esse parágrafo e, a seguir, explique o que quer significar o autor na seqüência com a expressão “monopólio do braço indígena”.
  2. A retomada de um mesmo vocábulo, com a mesma flexão ou com variação de flexão, denominada poliptoto pela retórica tradicional, é um recurso comumente usado para conferir ênfase à expressão de determinados conteúdos num período, como nesta passagem de Os Lusíadas: “No mar, tanta tormenta e tanto dano, / Tantas vezes a morte apercebida; /Na terra, tanta guerra, tanto engano, / Tanta necessidade aborrecida” (I, 106). Demonstre que Euclides da Cunha se serve desse recurso no terceiro período do sétimo parágrafo do texto.
  3. Os escritores utilizam, por vezes, expressões que, à primeira vista, parecem exageradas, mas que carregam a intenção de tornar mais concreto um argumento para o leitor. Com base nesta observação, releia o segundo período do quinto parágrafo e demonstre que Euclides da Cunha serviu-se desse recurso ao empregar a expressão “sem uma remada”.

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