PROVA DE LÍNGUA PORTUGUESA
CADERNO DE QUESTÕES
INSTRUÇÃO: As questões de números 01 a 03 tomam por base uma crônica de Fernando Pessoa (1888-1935).
Crônica da vida que passa
Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes de sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações — ridiculamente humanas às vezes — que ele quereria invisíveis, côa-as a lente da celebridade para espetaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma seestraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.
Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de gênio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e
Penso às vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que “homem de gênio desconhecido” é o mais belo de todos os destinos, torna-se-me inegável; parece-me que esse é não só o mais belo, mas o maior dos destinos.
(FERNANDO PESSOA. Páginas íntimas e de auto-interpretação. Lisboa: Edições Ática, [s.d.], p. 66-67.)
INSTRUÇÃO: As questões de números 04 a 07 se baseiam num soneto de Cruz e Sousa (1861-1898) e num trecho de uma carta de Mário de Andrade (1893-1945) a Manuel Bandeira (1886-1968).
Alma fatigada
Nem dormir nem morrer na fria Eternidade!
mas repousar um pouco e repousar um tanto,
os olhos enxugar das convulsões do pranto,
enxugar e sentir a ideal serenidade.
A graça do consolo e da tranqüilidade
de um céu de carinhoso e perfumado encanto,
mas sem nenhum carnal e mórbido quebranto,
sem o tédio senil da vã perpetuidade.
Um sonho lirial d’estrelas desoladas,
onde as almas febris, exaustas, fatigadas
possam se recordar e repousar tranqüilas!
Um descanso de Amor, de celestes miragens,
onde eu goze outra luz de místicas paisagens
e nunca mais pressinta o remexer de argilas!
(CRUZ E SOUSA. Obra completa. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1961, p. 191-192.)
Carta a Manuel Bandeira, S.Paulo, 28-III-31
Manú,
bom-dia. Amanhã é domingo pé-de-cachimbo, e levarei sua carta, (isto é vou ainda rele-la pra ver si a posso levar tal como está, ou não podendo contarei) pra Alcantara com Lolita que tambem ficarão satisfeitos de saber que você já está mais fagueirinho e o acidente não terá consequencia nenhuma. Esse caso de você ter medo duma possivel doença comprida e chupando lentamente o que tem de perceptivel na gente, pro lado lá da morte, é mesmo um caso serio. Deve ser danado a gente morrer com lentidão, mas em todo caso sempre me parece inda, não mais danado, mas semvergonhamente pueril, a gente morrer de repente. Eu jamais que imagino na morte, creio que você sabe disso. Aboli a morte do mecanismo da minha vida e embora já esteja com meus trinteoito anos, faço projetos pra daqui a dez anos, quinze, como si pra mim a morte não tivesse de “vim”... como todos pronunciam. A idea da morte desfibra danadamente a atividade, dá logo vontade da gente deitar na cama e morrer, irrita. Aboli a noção de morte prá minha vida e tenho me dado bem regularmente com êsse pragmatismo inocente. Mas levado pela sua carta, não sei, mas acho que não me desagradava não me pôr em contacto com a morte, ver ela de perto, ter tempo pra botar os meus trabalhos do mundo em ordem que me satisfaça e diante da infalivel vencedora, regularisar pra com Deus o que em mim sobrar de inutil pro mundo.
(MÁRIO DE ANDRADE. Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1958, p. 269-270.)
VNSP/Língua Portuguesa 2
INSTRUÇÃO: As questões de números 08 a 10 tomam por base um fragmento de um poema de Alberto de Oliveira (1857-1937) e uma tira de Adão Iturrusgarai (1965-).
O que eu lhe dizia
Não sei se é certo ou não o que eu li outro dia, Onde, já não me lembra, ó minha noiva amada:
— “A posse faz perder metade da valia
À cousa desejada.” Não sei se após haver saciado no meu peito, Quando houver de possuir-te, esta ardente paixão, Eu sentirei em mim, de gozo satisfeito,
Menor o coração. Sei que te amo, e a teus pés a minh’alma abatida Beija humilde e feliz o grilhão que a tortura; Sei que te amo, e este amor é toda a minha vida, Toda a minha ventura.
Talvez haja entre mim que os passos te acompanho, E a abelha que a zumbir vai procurar a flor,
— Alma ou asas movendo — o mesmo fluido estranho, seja instinto ou amor;
Talvez o que eu presumo irradiação divina, Minha nobre paixão, meu fervoroso afeto, Por sua vez o sinta o verme da campina,
O inseto ao pé do inseto... (ALBERTO DE OLIVEIRA. Poesias – segunda série (1898-1903). Rio de Janeiro: H. Garnier, 1906, p. 20-21.)
(ADÃO ITURRUSGARAI, O mundo maravilhoso de Adão Iturrusgarai, www.adao.blog.uol.com.br/images/tira-pro-site.gif. Adaptado.)
INSTRUÇÃO: Leia atentamente os seguintes fragmentos de textos.
1. Fragmento de conferência de Olavo Bilac (1865-1918) sobre a obra do poeta Bocage (1765-1805):
É tão fácil ser popular! terríveis assassinos, exímios ladrões, grandes devassos alcançam facilmente uma celebridade mais vasta do que a que logram os mais altos benfeitores da humanidade e os mais claros servidores da arte. Nem é preciso para ganhar notoriedade ser um chapado criminoso, nem um rematado louco; para subir ao galarim, não é necessário ser Nero, nem Eróstrato;
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a escalada para o fastígio não requer sublimidades de crueldade nem de megalomania: nem a carnificina de cem mil cristãos, nem o incêndio do templo de Diana. Para guindar um homem ao Capitólio, bastam tolices vulgares, extravagâncias jocosas ou escandalosas, e pequeninas infâmias (...).
(OLAVO BILAC. Últimas conferências e discursos. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1927, p. 84.)
2. Fragmento de entrevista do ator Pedro Cardoso (1962-) à revista IstoéGENTE:
IstoéGENTE – Encontrou sucesso no teatro e ficou famoso na tevê. É bom ser famoso?
Pedro Cardoso – Gosto do sucesso, não gosto da fama. Quando minha imagem está vinculada ao meu trabalho, não há problema. Do contrário, é incômodo para a individualidade. Tenho horror a área vip. Você já me viu em algum lugar? Não, né? Eu não vou. Compro ingresso, entro na fila, vou onde todosvão. É ridículo ir a lugares vip. Num país como o Brasil, é falta de educação.
(www.terra.com.br/istoegente/290/entrevista/index.htm. Acesso: 11.09.2007.)
3. Fragmento de crônica de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987):
Fama
Ninguém se espante com o diálogo que mantive com um bebê de 15 dias de existência. Hoje, a comunicação não conhece fronteiras espaciais ou etárias. O bebê não fala o português de Portugal nem o português brasileiro, ensinado pelo saudoso professor Stanislaw Ponte Preta. Mas fala a seu modo, desde que se saiba interrogá-lo, e eu, não é por me gabar, tenho meus macetes. Perguntei-lhe de saída:
— Então, satisfeita de vir ao mundo?
Respondeu-me com rabugem, em termos que traduzirei assim:
— E daí? Pensa que o meu Ibope me dá prazer?
(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE. De notícias & não notícias faz-se a crônica – histórias, diálogos, divagações. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1975, p. 133-134.)
4. Fragmento de fala do velho do Restelo, do canto IV de Os Lusíadas de Luís de Camões (1525-1580):
“Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exp’rimentas!”
(LUÍS DE CAMÕES. Os Lusíadas, canto IV, 95.)
Proposição
Celebridade, renome, nomeada, notoriedade, conceito, reputação, prestígio, glória, fama. São numerosas as palavras para rotular um mesmo status social: ser conhecido, ser reconhecido, ter nome, ter renome, ter nomeada, ter prestígio, ter glória, ser célebre, ser famoso, ser glorioso, ser conhecido por todas as pessoas no mundo todo. Os artistas antigos representavam alegoricamente a Fama como uma deusa dotada de cem bocas e cem orelhas, com olhos que surgiam por baixo de suas asas. Consta que o obscuro efésio Eróstrato, no afã de imortalizar seu nome, incendiou em 356 a.C. o grande templo de Ártemis, considerado uma das maravilhas do mundo antigo. Mas é preciso buscar a fama a qualquercusto? É vital para um homem ser conhecido/reconhecido por to-dos? Artistas, atletas, escritores, pensadores, intelectuais de modo geral não têm a mesma resposta para essas indagações. Tomando por base o texto das questões 01 a 03, bem como os fragmentos apresentados acima, tente dar a sua resposta, fazendo uma redação em prosa, de gênero dissertativo, sobre o tema
É PRECISO SER FAMOSO?
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